Quando estreou, em abril de 2014, o “Tá no Ar: a TV na TV” fez barulho
por tocar em assuntos que tinham se tornado tabus em humorísticos da Rede
Globo. Havia uma dose de charmosa iconoclastia especialmente no
personagem militante pernambucano (Marcelo Adnet na foto acima). Todas as teorias da
conspiração possíveis estavam na boca dele, na tela da emissora. A
surpresa potencializava a graça. Era impossível não rir daquilo. Mas na
terceira temporada (estreou na última terça-feira) o personagem manteria
o apelo? A resposta para a pergunta é sim.
Aliás, isso vale para o programa como um todo. Em alguma medida, o “Tá
no Ar” é um herdeiro do “Casseta & Planeta”. Isso fica bem evidente
nas paródias musicais (esta semana, brincaram com “O que é, o que é?”,
de Gonzaguinha). Ou na propaganda de produtos que só existem na
imaginação, como o “propinocard”, “para roubar com classe, inteligência e
exclusivo plano de pilhagem”. Quem vai negar que as Organizações
Tabajara são o pai desse cartão de crédito? No entanto, o programa de
Marcius Melhem, Marcelo Adnet e Maurício Farias tem méritos próprios e
eles não são poucos.
A narrativa clipada, que simula o zapeamento, é bem conduzida. Os
quadros se encadeiam com inteligência, as interrupções funcionam a favor
do ritmo, as piadas não se arrastam. Na estreia, foi graças a esse
recurso que o militante fez rir logo de cara. Ele surgiu depois de um
esquete com Marcelo Adnet, anunciando um aplicativo de táxi “para
relembrar 1989”. Ele serviria àqueles que desejam andar de Brasília, com
refrigeração vinda de um quebra-vento. No que, zás, entra o militante,
dizendo: “Eu ouvi 89? Vão me cortar como fizeram com o Lula?” (numa
alusão ao debate com Collor).
O elenco tem brilho, o texto é espirituoso e cheio de referências para o
bom entendedor, mas sem perder a mira no que é popular. Mas o grande
pulo do gato é a inteligência no encadeamento. Além da ordem estudada
dos quadros e do diálogo entre eles, há sempre um ou dois de mais
fôlego, atravessando o programa. Na estreia foi a imitação de João
Klébber com o mistério “o que tem na caixa?”. Muito engraçado.